O Conservadorismo das Aparências.

Por Leo Nerys

retrovisor

A maioria das pessoas já viveu o bastante para ouvir coisas como “No meu tempo as coisas eram diferentes (melhores)” “Estão destruindo os velhos valores” “Não se faz mais (…) como antigamente”. Todas estes padrões de pensamento têm raiz numa tendência a idealizar o passado como um meio de fugir dos problemas do presente. A maioria saudosistas não viveu na época a que se refere com saudades. Os homens eram viris e cavalheiros. As mulheres, donzelas puras. As crianças respeitavam seus pais incondicionalmente e seus pais tinham igual zelo por elas. A natureza era respeitada. Promessa era dívida! Havia amor à pátria. Não havia uso de drogas, nem promiscuidade sexual, e as pessoas eram fiéis a uma concepção religiosa que mantinha os padrões morais. Daí veio uma tal de modernidade [a televisão, a subversão cultural, o ateísmo, o individualismo, a pornografia, o politicamente correto, o homossexualismo, a era industrial] e destruiu o mundo dos sonhos dos saudosistas. Qualquer um que leve este ponto de vista a sério chega a uma conclusão: É preciso conservar as maravilhas do mundo antigo na forma dos costumes contra a modernidade, ainda que isto signifique proibir pessoas adultas de fazerem o que querem com a própria vida sob a justificativa de que é pelo bem delas, pelo bem da sociedade ou das gerações futuras. Isso resume a maior parte dos conservadores.

Tal visão se dissolve diante de uma análise histórica honesta. Não houve realmente um tempo melhor que este em que as pessoas eram em sua maioria honestas e bem-intencionadas, respeitadoras da família e da religião, sóbrias e castas. Muitas coisas mudaram desde que as civilizações passadas habitaram nosso planeta, a maioria delas para melhor. Graças ao desenvolvimento capitalista e a um certo ambiente de liberdade nunca antes visto, temos uma oferta abundante de alimentos, cultura e entretenimento mais acessível que nunca. A medicina evoluiu do curandeirismo, da mistura de ervas e do aspecto de açougue para uma oferta enorme de medicamentos para as mais variadas doenças e procedimentos cirúrgicos indolores servindo ao luxo das preferências estéticas de quem pode pagar. Uma sociedade plural que se permite aceitar respeitosamente diferentes modos de vida em ambientes de maior liberdade individual, e talvez seja este o ponto em que conservadores em geral torcem o nariz. Algumas culturas são sim superiores no respeito ao ser humano, mas a aceitação de modos de vida diferentes num mesmo ambiente, reflexo da pluralidade dos indivíduos, não é exatamente sinônimo de relativismo moral ou revolução cultural, e sim de uma mudança de estado.

Conservadores concebem o processo de mudança de uma sociedade como lento, gradual e espontâneo, mas o que exatamente faz deste ritmo de mudanças uma lei? Vivemos num tempo em que as coisas acontecem com cada vez mais velocidade e dinamismo, e é racional esperar que as relações entre os indivíduos sigam o fluxo. A existência de grupos ligados ao governo interessados numa destruição do sistema de valores vigente para fazer valer seus propósitos não torna toda mudança na sociedade uma ação planejada, artificial e disfuncional. Usar o Estado para criar restrições a certas formas de comportamento não é eficiente nem para preservar uma suposta saúde da sociedade, nem para reverter mudanças. Serve sim para conservar as aparências e impor padrões morais (em sua maior parte arbitrários) à força sobre os indivíduos. Aqueles que acreditam que o Estado deve ser o guardião dos valores, da família, da fé e das tradições não acreditam sinceramente na superioridade destes em relação a outros modos de vida. Não há nenhuma virtude em fazer ou deixar de fazer coisas sob ameaça.

Precisamos de uma reflexão honesta sobre a história e sobre a sociedade para crescermos enquanto indivíduos, e de um ambiente de liberdade que estimule a competição entre comportamentos mais e menos produtivos a fim de determinar aquilo que é funcional e saudável.

Esta é uma crítica ao conservadorismo superficial, idealista e estatista, não a todos os conservadores.

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